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sexta-feira, 13 de julho de 2012
segunda-feira, 9 de julho de 2012
A MORTE DO ROCK
Passei os últimos 20 anos da minha vida tocando Rock .
Toquei várias vertentes, de Gótico à Heavy Metal, passando por Pop, Indie, e
mais qualquer outro estilo que se pensar.
Tenho experiência de estúdio, sendo que gravei pela primeira
vez com uma banda de Rock Clássico chamada Black Jack. Foi uma gravação ao vivo
de ensaio com a banda inteira. Foi tosco, mas valeu a experiência.
Pois bem, eu cheguei à conclusão que NÃO VALE À PENA TOCAR
ROCK NO DF OU NO BRASIL. Sabe por que? As pessoas NÃO curtem rock.
Eu cresci vendo filmes da Sessão da Tarde nos anos 80, tipo
Goonies e assemelhados, e eu achava que se uma coisa fosse boa o povo iria
gostar. Eu tinha aquele negócio do sonho americano dentro de mim (no mal
sentido) e achava que um dia faria um grande sucesso, ou que pelo menos tivesse
algum reconhecimento só por que tenho talento e uma paixão doida por música.
Esse sonho americano existe entre vários de nós brasileiros, haja vista filmes
com Os Dois Filhos de Francisco, em que Zezé e o seu parasita Luciano alcançam
grande sucesso pelo simples fato de terem talento e um pai maluco que pagava
fichas telefônicas para que os peões de obra a ele submetidos (creio que seu
Francisco tenha sido Mestre de Obras) ligassem pedindo a música na rádio. Pois
é, eu cresci acreditando nessa versão brasileira do sonho americano, aquele
lance “tente outra vez” ou “eu sou brasileiro e não desisto nunca” que é uma
adaptação mais dramática do Sonho Americano para os trópicos.
Hoje eu vejo que isso é impossível.
As pessoas não curtem rock. Não adianta você tocar, cantar e
compor. Não adianta se você fizer tudo bem. O que adianta é o que algum czar da
indústria fonográfica vai decidir que virará moda. Daí eles criam alguma
“maravilha de um hit só”, enchem o rabo de grana, exploram o artista ingênuo do
“tchu tchá” ou “tchererererê” ao máximo, e partem para uma nova maravilha de um
hit só.
É tudo lixo. Antigamente havia espaço para coisas que
prestassem. Hoje o espaço é mínimo, a não ser que você seja um daqueles
medalhões da MPB ou uma diva lésbica que pretenda ser uma reencarnação da
Cássia Eller. Ah, se você for apadrinhada do Nelson Motta é melhor ainda.
Eu me lembro do Cazuza tocando nas rádios. Eu admirava o
cara, mas sentia muita tristeza em suas músicas. Eu ouvia Legião indo para a
escola no rádio do carro da minha mãe, assim como ouvia Guns’n’Roses enquanto
passeava em um shopping da Tijuca em 1989 (shopping 45, não faço idéia se ainda
existe). As pessoas curtiam The Smiths e Cindy Lauper, havia as músicas de
duplo sentido do Luís Caldas e da Sarajane, mas havia outras coisas também. Até
o “Axé Music” era algo menos repetitivo e bem mais criativo.
A economia estava em uma recessão horrível e não havia
muitas esperanças de que a situação melhorasse. Vivíamos em um período de
hiperinflação em que o dinheiro perdia cerca de 30% de seu valor a cada mês.
Era Sarney, a era de horror econômico e caos, mas não na música. Havia muita
música boa.
Sei que a indústria fonográfica está em crise e que os
executivos e demais formadores de opinião querem ganhar grana certa, mas será
que a produção de músicas onomatopéicas com cantores feios e sem talento dá
tanta grana assim? Será que não vale a pena tentar algo de diferente.
Pois bem, eu visualizei essa dura realidade na pele quando
fui cantar em um evento em uma cidade-satélite de Brasília. O set-list incluía
5 músicas, só consegui executar 3. Os técnicos de som desta “feira” ou “festa”
eram empregados da banda de forró que viria a seguir. Eles só me deixaram levar
3 músicas e cortaram meu microfone, o que nem me deu tempo de me despedir do
público.
Foi duro, foi horrível. E olha que eu sou mais bonita ,
canto bem melhor e toco mais que qualquer um dos músicos da banda de forró. Mas
o fato de eu ser bonitinha e cantar bem não importou para o público, que estava
interessado no forró “atochado” com um dançarino exótico que se assemelhava ao
Chapolin Colorado. Sério, tinha um sujeito vestido de vermelho alaranjado
fazendo passos esdrúxulos acompanhado de umas meninas bonitinhas. Tudo bem
colocar dançarinas, mas precisava daquele Chapolin chamativo?
Nada contra forró, mas expulsar do palco quem estava na
frente e que NÃO HAVIA SIDO CULPADO PELO ATRASO é horrível . Eu só precisava de
mais dez minutos.
Na minha humilde cabeça cheia de novelas das 8 dos anos
80(antes a novela começava às 8:30) e filmes sobre o “Sonho Americano” ou
“Drama de Brasileiro Que Não Desiste Nunca” eu achava que o público iria me dar
chance de tocar e de entreter simplesmente por que eu toco bem. Ledo engano.
Não é isso o que ocorre. Os caras da banda de forró não
estavam nem aí para o fato de eu estar esperando ali há horas para tocar ou que
eu tinha atravessado o Distrito Federal inteiro atrás de uma bateria. Eles me
expulsaram do palco, só isso.
O público era mínimo e poucos curtiram, até porque o público
queria um forró “atochado” de ralar perna com perna até um masturbar o outro no
meio de tanta ralação. Eu não tenho nada contra masturbação, mas creio que
deveria haver mais espaço para músicas que não envolvam danças eróticas.
Falando em espaço, devo dizer que não há espaço para bons
músicos. Não há espaço para quem seja bom, independentemente de estilo. Há
espaço somente para empresários que criam bandas de laboratório e que tocam
estilos que eles decidem que devem ser lucrativos no futuro. É uma ditadura,
pois uns poucos czares decidem o que todo o mundo vai ouvir.
Fiquei arrasada e cheguei a minha casa em choque. Nós não
havíamos nem recebido o cachê e a “posição de honra” para que tocássemos todo o
set-list nos foi negada. Alguns dos envolvidos na produção (não os forrozeiros)
haviam insistido para que tocássemos e prometeram uma “posição de honra”.
Mentira deles.
Os outros músicos da banda ficaram felizes e eu fiquei
triste. Não haviam sido eles que haviam cantado e sentido a reação do público. Naquele
momento da expulsão eu realizei que ninguém mais faz Rock no Brasil.
O Rock nunca foi bem visto no Brasil, tanto que músicos e
fãs do estilo sempre foram meio marginalizados. Recentemente descobri que houve
uma passeata ridícula de 1967 capitaneada pela Elis e pelo Edu Lobo contra a
guitarra elétrica. Jair Rodrigues estava na passeata e Gil também, todos contra
a “invasão ianque da guitarra”. Caetano e Nara Leão viram tudo de longe e ficaram
chocados. Nara Leão chegou a dizer que parecia uma “passeata integralista”.
Por que tanto preconceito contra um instrumento legal de
seis cordas? Que merda é essa? Tudo bem, sei que Elis depois se rendeu ao uso
da guitarra posteriormente e que o filho do Jair Rodrigues foi estudar na
Berklee School Of Music em Boston (é, a família Rodrigues tem alguém de seu clã
graduado pela universidade de música americana),
mas isso demonstra a idéia dos czares de que a MPB é algo sacrossanto,
puramente brasileiro, e que a guitarra deve ser banida. Esse pensamento ridículo
ainda existe.
E a guitarra está associada ao Rock e o Rock está associado
a alguma xenofobia ridícula contra os Americanos. Tudo bem que os EUA fazem
altas merdas no mundo, mas a gente tem que admitir que há muita música boa por
ali. E tudo isso é idéia dos czares da música no Brasil, que influenciam o
povo. Daí o povo odeia Rock e guitarra.
É. O preconceito contra o Rock vem de longe, implantado no
inconsciente coletivo da população.
Houve um breve período em que os czares mostravam Rock para
o povo, assim como vários outros estilos criativos. Depois eles decidiram QUE
NÃO VALIA A PENA MOSTRAR O ROCK PARA O POVO.
Eu senti isso na pele, e olha que não foi a primeira vez. Há
uns três anos fui tocar na feira da lua em Sobradinho. Eles me deixaram tocar 2
músicas, sem cachê, e eu fui quase que expulsa do palco para que uma dupla de
eletro-sertanejo tocasse. Já viram eletro-sertanejo? É sertanejo com um
tecladinho e bateria eletrônica, sem nenhum outro instrumento. É aquela batida
de bateria que já vem no teclado quando você compra. Música de churrascaria é
melhor que isso.
Essas duas experiências me marcaram, pois aprendi que não
vale a pena tocar ou cantar bem se você não é “produzido em laboratório” por
algum desses tiranos da indústria musical. Eles pegam alguém, colocam na forma,
exploram o artista, e enchem o rabo de grana. Não há espaço para nada que não
seja pré-fabricado.
Eu não fui pré-fabricada. Eu aprendi a tocar sozinha
estudando, ouvindo música, e lendo. A música flui de mim naturalmente. Não sei
nem como eu poderia ser moldada por um desses czares numa dessas formas. É
foda. Fazer o quê?
Pois é, o Sonho Americano adaptado aos trópicos não existe
mais, e não vale a pena tocar Rock para uma platéia de surdos. Tocar Rock no
Brasil, ou pelo menos em Brasília, não vale a pena. Eu fico pensando se
realmente vale à pena você tocar o que quer que seja num país onde tudo o que é
feito e consumido é pré-fabricado num universo de músicas onomatopéicas de
artistas medíocres. E olha que nem tocando covers da Adele eles conseguem
disfarçar a falta de talento. Ah, mas eles não têm talento, eles têm alguém
poderoso por trás, bem por trás (falei no segundo sentido, mesmo)
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